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Página sobre textos Comunistas
CHE GUEVARA
Sumário
A morte e Che Guevara
Argentina, 1928-1953
Guatemala, 1953-4
México 1954-6
Cuba: a guerrilha: 1956-9
Congo, 1965
Bolívia: 1966-7
Conclusão
Bibliografia
A morte de Che Guevara
"É o meu destino : hoje devo morrer!
Mas não , a força de vontade pode superar tudo!
há obstáculos, eu reconheço!
não quero sair....
Se tenho que morrer será nesta caverna (...).
Morrer, sim, mas crivado de balas, destroçado pelas baionetas
Uma recordação mais duradoura do que meu nome
É lutar, morrer lutando"
Ernesto Guevara de la Serna, janeiro de 1947.
Desde que dois bolivianos, integrantes da guerrilha comandada por Che Guevara instalada na região do Ñacahuazú, a uns 250 quilômetros ao sul de Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, desertaram, os militares tiveram quase certeza que aquele a quem denominavam "Ramón", era de fato o Che. Há dois anos, desde sua carta de despedida, lida publicamente por Fidel Castro, em outubro de 1965, que ninguém, a não ser o alto comando cubano, sabia do seu paradeiro. Em pouco tempo, assessores militares norte-americanos desembarcaram em La Paz, capital da Bolívia, para instruir o mais rápido possível um batalhão de Rangers, adestrados na contra-insurgência, capazes de sair à caça dos guerrilheiros. As certezas da CIA e das autoridades bolivianas, da presença de Che, aumentaram ainda mais quando capturaram, em Muyupampa, um vilarejo no sul do país, no dia 20 de abril de 1967, o intelectual francês Regis Debray, um agente de ligação de Fidel com Che, e o argentino Ciro Bustos. Tornou-se evidente que a presença dos dois estrangeiros se devia a razões de um plano mais vasto de operações militares. Debray, depois de torturado, confessou que "Ramón" era mesmo o Che.
Entrementes, Che havia dividido seus homens - formado em sua maioria por cubanos, alguns bolivianos, um par de peruanos e uma mulher, Tânia, uma teuto - argentina que integrara-se na luta - em duas colunas, a de Joaquim e a dele. O grupo de Joaquim foi exterminado em Vado del Yeso, quando tentava atravessar os rios Acero e Oro. O de Guevara, reduzido a 17 homens, foi cercado, no 11º mês de manobras, num canyon em La Higuera, pelas tropas do capitão Gary Prado, no dia 8 de outubro de 1967. Depois de intenso tiroteio, com sua arma avariada e com a perna trespassada por uma bala, Che Guevara rendeu-se. Sua aparência era assustadora, parecia um mendigo, magro, sujo e esfarrapado. Levaram-no para um casebre em La Higuera que servia como escola rural. Lá, na tétrica companhia dos cadáveres de dois jovens guerrilheiros cubanos, ele passou sua última noite. Foi interrogado pelo ten-cel. Andrés Selich ao qual apenas confessou ter sido derrotado, lamentando que nenhum camponês boliviano tenha aderido aos seus propósitos.
No dia seguinte, 9 de outubro, por rádio, veio a ordem de La Paz para que o executassem. O agente cubano-americano da CIA, Félix Rodrigues, desejava levar Che como prisioneiro para o Panamá para interrogá-lo, mas o Gen. René Barrientos, presidente da Bolívia, fora muito claro.
Coube ao sargento Mário Terán, disparar-lhe uma rajada de balas quando Che ainda estava deitado no chão batido da escola. Morreu aos 39 anos. Removeram-no para Vallegrande onde foi exposto sobre umas pias da lavandeira de um pequeno hospital. Lá amputaram-lhe as mãos para conferir com suas digitais existentes na Argentina. Antes, tiram várias fotos. Surpreendentemente ele, ferido e estirado, parecia-se com uma daquelas telas do Barroco que retratam o Cristo caído. Seu olhar fixo parecia tranqüilo, como se não fosse surpreendido pelo desastre. Consumava-se assim a sua idéia da morte como martírio. Ele, e mais sete outros, foram enterrados numa cova anônima nas proximidades do pequeno aeroporto de Vallegrande, sob o mais absoluto sigilo. Durante os 28 anos seguintes ninguém manifestou-se a respeito, até que o Gen. reformado Mário Vargas Salinas informou ao jornalista Jon Lee Anderson aonde jogaram o cadáver. Depois de dois anos de escavações, peritos cubanos e argentinos, encontraram finalmente seus ossos. Foram transladados para Cuba, onde foram recebidos por Fidel e Raul Castro com honras de estado. Nesses trinta anos que se passaram Che Guevara havia deixado a História para adentrar na Mitologia da América Latina.
Argentina, 1928-1953
"Sempre me tive por bom, sou touro no meu rodeio,
mais touro no campo alheio, (...)
com os brandos sempre sou brando, e sou duro com os duros
e ninguém , noutros apuros, me viu andar titubeando."
José Hernández "El gaucho Martín Fierro"( Canto I, 11-12), 1872
Parte do fascínio que Ernesto Guevara, o Che, exerceu sobre sua geração deve-se a que ele pertencia à elite argentina. Ao contrário de outras celebridades populares latino-americanas envolvidas com a política, como Emiliano Zapata, César Sandino ou Eva Perón, o Che descendia da oligarquia. Os Guevara Lynch e os la Serna, seus pais, tinham vínculos com a aristocracia rural. Não eram ricos, mas tinham "berço". Isso tornou Guevara ainda mais atraente porque sua rebeldia não podia ser atribuída ao ressentimento social ou a algum complexo de inferioridade que desejava sublimar pela revolução. Ela vinha da indignação com a miséria latino-americana ; era de origem eminentemente moral e intelectual. Foi um homem que tinha tudo para realizar-se numa vida normal: posição social, relações com a alta sociedade, uma profissão respeitada, e a possibilidade de viver magnificamente em Buenos Aires, a mais culta e rica cidade da América do Sul.
Pois abandonou tudo para tornar-se um peregrino da revolução, emprestando seu nome e sua liderança às causas que considerava justas. Andou por montanhas e selvas, na América do Sul e Central, no Caribe e na África, passou por incontáveis privações e todo tipo de males e doenças decorrentes da guerra de guerrilhas, sempre perseguido por ataques terríveis de asma. De certa forma, seu grande inspirador foi Martín Fierro, um gaúcho, personagem de ficção de José Hernández (obra publicada em 1872), que passou a sua vida de gaudério envolvido em pelejas e incontáveis lutas. "El gaucho Martín Fierro", era um dos seus livros favoritos. A Guevara, como a Fierro, causava repulsa o fato de que "Está na lei, o de cima se faz o que lhe aproveite (...) Ao pobre, mal se descuide, o levantam de um sogaço.." Em várias ocasiões, Che usou o codinome de Martín Fierro, como que para anunciar-se como uma versão atualizada do andarilho brigão dos pampas.
Nascido em Rosário, cidade do interior da Argentina, em 15 de junho de 1928, Ernesto Guevara cursou o ginásio em Córdoba, mudando-se depois para Buenos Aires onde, em 1953, concluiu a Faculdade de Medicina. Provavelmente, em razão do seu mal especializou-se em medicina alérgica sem no entanto exercê-la. Recém-graduado saiu com um amigo a viajar pela América do Sul, amparado no lema "pouca bagagem, pernas fortes e estômago de faquir.". Foi à Bolívia, Peru, e ao Equador. E, anteriormente, visitara o Chile e a Venezuela. Data dessa época o hábito de escrever um diário e, simultaneamente, manter uma intensa correspondência com sua mãe Célia, a quem confessou sua "nova posição de aventureiro 100%". Visitou leprosários e chegou a andar de balsa na Amazônia peruana. Consta que imaginou ir à ilha da Páscoa. Até essa época não manifestara uma inclinação maior pela política.
Guatemala 1953-4
"Junta experiência de vida, até para dar e emprestar,
quem a teve que passar entre sofrimento e pranto.."
José Hernández - "El gaucho Martín Fierro"( Canto II, 21)
Estando no Equador, Guevara sentiu-se atraído pelo governo do presidente Jacobo Arbens, um general nacionalista guatemalteco que estava disposto a desafiar a grande empresa norte-americana a United Fruits Co., dona da maioria das terras produtivas da América Central e Caribe e principal produtora e exportadora de frutas de toda a região.
Essa corporação, apelidada de "el pulpo", associava-se aos ditadores locais, formando aquilo que o poeta Pablo Neruda denunciou como o "o reino tirânico das moscas." Mas Arbenz era uma exceção e resolveu retirar-lhe uma séria de vantagens, ameaçando-a com uma reforma agrária. Foi o que bastou para ser apontado pelos americanos como um "simpatizante do comunismo" ou que se deixava manipular por eles. Em pouco tempo, a Guatemala foi diplomaticamente isolada e a CIA instrumentalizou um golpe, o primeiro deles, que, depois, seria aplicado, com poucas alterações, nas outras deposições que ela organizou no Continente. Guevara, enquanto isso, tratou de prestar serviços médicos, mas terminou rejeitado por motivos corporativos. Foi na cidade da Guatemala que conheceu Hilda Gadea, que se tornou sua primeira esposa. Freqüentando uma biblioteca de um partido de esquerda ele ampliou seus conhecimentos sobre o marxismo, lendo Marx e Lênin.
No dia 18 de junho, apoiado por aviões da CIA, o Cel. Castillo Armas e mais 400 combatentes, invadiram o país. A solicitação da Guatemala para que a origem da invasão fosse investigada pela ONU foi rejeitada. Os EUA conseguiram uma apertada vitória no Conselho de Segurança, negando-lhe qualquer apoio. Depois de uma frágil resistência, abandonado por todos, o governo Arbenz se desmantelou. No dia 3 de julho encerrava-se a "Operação Sucesso"da CIA. Castillo Armas chegou à capital, desembarcando ao lado do embaixador norte-americano, enquanto Arbenz partiu para o exílio e o esquecimento. Todos os privilégios da United Fruits Co. foram restaurados imediatamente.
Guevara registrou numa carta: "a América será o palco das minhas aventuras e com uma feição muito mais importante do que eu imaginara." Também percebeu que a invasão da Guatemala pertencia a um cenário mais amplo de confronto mundial entre os Estados Unidos e os comunistas. Pouco tempo depois, decepcionado com o que vira e passara no pequeno país, rumou para o México. A essa altura, além de marxista, converteu-se num ardoroso anti-americano.
México 1954-6
"Vi meu pleito mal parado
e não quis aguardar mais..."
José Hernández "El gaucho Martín Fierro" (Canto IV, 128)
Ao fazer plantão voluntário num hospital mexicano voltou a encontrar um cubano, amigo seu dos tempos da Guatemala. Nos dias seguintes foi apresentado a um grupo de exilados cubanos, militantes do "Movimento 26 de julho", ou M-26, que haviam buscado abrigo no México. Essa denominação decorria da data - 26 de julho de 1953 - em que Fidel Castro, um jovem advogado, combatente da ditadura Batista, instalada em Cuba, em 1952, resolveu atacar um quartel militar na Província do Oriente.O quartel de Moncada. O ataque foi desastroso para os rebeldes. A maioria deles foi capturada e fuzilada. Fidel Castro teve sorte, rendido vivo foi levado para a prisão da Ilha de los Pinos.
Para muitos cubanos ele foi visto como um herói, enfrentando a ditadura de peito aberto. Cedendo à pressões, Batista permitiu que Fidel Castro fosse solto e deixasse o país. Ele partiu então para o México onde começou a organizar um grupo de exilados para voltar a ilha e derrubar, por meio de uma "guerra revolucionária", o ditador. Inspirava-se no mesmo modelo do herói nacional cubano, o poeta José Martí, que em 1895, deu início à guerra de Independência de Cuba contra a Espanha.
Como os expedicionários precisavam de um médico, apresentaram Guevara a Fidel Castro que o convidou a engajar-se na aventura. Ele participou e comandou os exercícios militares preliminares de treinamento. Foi em seu convívio com os cubanos que passou a ser apelidado de "Che" pelo hábito, tipicamente platino, de recorrer a essa expressão. Fidel Castro comprou um iate chamado "Granma" e, no dia 25 de novembro de 1956, rumou, atulhando a embarcação com armas e 82 homens, do porto de Tuxpán, no Golfo do México, em direção à Cuba. Guevara, inspirado num poeta, escreveu à mãe "Eu só levarei para o túmulo/ o pesadelo de uma canção inacabada".
Cuba: a guerrilha: 1956-9
"Entro e saio do perigo
sem que se espante o estrago;
não cedo ao primeiro amágo..."
José Hernández "El gaucho Martín Fierro" (Canto VI, 167)
A Cuba dos anos cinqüenta era uma semicolônia norte-americana. Sua luta pela Independência, iniciada em 1895, provocara a intervenção dos ianques que derrotaram a Espanha, na guerra de 1898, fazendo com que a ilha se tornasse um prolongamento dos seus interesses no Caribe. A agricultura era quase que exclusivamente dedicada ao açúcar, que representava 50% da safra e 80% das exportações. Um em cada cinco cubanos dependia da cana-de-açucar. Quase todas as usinas eram americanas e os Estados Unidos absorviam a metade da sua produção.
A pseudoindependência que obtivera, especialmente depois da rescisão da Emenda Platt, em 1934, não alterou o perfil monocultural da sua economia. Muito do nacionalismo extremado dos cubanos, manifestado pela radicalidade dos acontecimentos a partir de 1959, deve-se a essa situação de dependência.. Mantinham uma relação de respeito e ódio pelos americanos. Quando Fidel Castro se insurgiu, ele reivindicava o retorno à constituição democrática de 1940 que havia sido aviltada pelo golpe militar de Batista. Não cogitava nenhum tipo de revolução social, muito menos converter a ilha num regime comunista.
O Granma, ao se aproximar do litoral cubano, em 2 de dezembro de 1956, encalhou. Os insurgentes perderam grande parte do material. O pior, porém, ainda estava por vir. Dias depois foram pegos numa emboscada pelo exército do ditador em Alegria del Pio. Quase foram dizimados. Menos de vinte homens sobreviveram para chegar ao alto da Sierra Maestra para juntar-se a Fidel Castro e dar inicio ao combate.
Foi nessa ocasião que Guevara, agora chamado definitivamente de Che, deixou de ser médico para tornar-se guerrilheiro. Em pouco tempo mostrou-se extremamente capaz de comandar homens e, apesar de ser estrangeiro, ganhou a admiração e respeito dos cubanos. Fidel Castro conseguiu não só sustentar-se no alto da Sierra como articular-se politicamente com a maioria das forças oposicionistas contra Batista. Até a simpatia da opinião pública americana ele atraiu ao mostrar-se um jovem idealista lutando contra uma ditadura corrupta latino-americana. Depois do fracasso de várias tentativas de liquidá-lo, feitas pelo exército e pela aviação de Batista, feitas em 1957-8, Fidel deu ordem a que duas colunas de guerrilheiros se lançassem na ofensiva. Uma era liderada por Camilo Cienfuegos e a outra por Che Guevara. O acontecimento mais espetacular se deu quando Che Guevara tomou Santa Clara, a penúltima cidade antes de chegar-se à capital. Ao saber da queda da capital provincial, Batista fugiu de Cuba no dia 1º de janeiro de 1959. Uma semana depois, após uma marcha triunfal, Fidel Castro entrou em Havana. Aparentemente um milagre ocorrera. Um pequeno grupo de gente decidida havia derrotado um exército apoiado por Washington.
Cuba: o poder, 1959-1965
"O caminho é largo e, em parte, desconhecido; conhecemos nossas limitações. Faremos o homem do século XXI: nós mesmos. Nos forjaremos na ação quotidiana, criando um homem novo com uma nova técnica." - Che Guevara "O socialismo e o Homem novo", 1965
O comprometimento de Fidel Castro em favorecer os camponeses que aderiram à Revolução fez com que ele se lançasse na Reforma Agrária, que se tornou dali em diante a fonte dos atritos com os proprietários de terra e com as empresas norte-americanas, naturalmente, com as classes médias que começaram a exilar-se em Miami. A lª Lei da Reforma Agrária foi promulgada em maio de 1959, seguida de uma série de outras que culminaram em 1964, expropriando as grandes fazendas e usinas. Em represália, os americanos cortaram o fornecimento de petróleo para a ilha de Cuba. Fidel Castro reagiu importando-o da URSS. As refinarias americanas negaram-se a refiná-lo. Fidel Castro expropriou-as.
Em pouco tempo a guerra econômica transformou-se numa guerra de fato. O governo americano decidiu depor Fidel Castro. No dia 15 de abril de 1961, cubanos exilados, treinados pela CIA, desembarcaram na Praia Girón, vindos da Nicarágua. Foi um fracasso. Fidel Castro conseguiu cercá-los, levando 1.180 invasores à rendição.
Che Guevara, que tornara-se comandante da fortaleza La Cabaña, onde seguramente mais de 500 seguidores da ditadura de Batista haviam sido fuzilados, não tomou parte diretamente nos acontecimentos da Praia Girón. Um ano antes, em 1960, ele aprontara um pequeno livro que iria ter largas e desastrosas conseqüências políticas na vida futura latino-americana: "A Guerra de Guerrilhas" (La guerra de guerrillas). Baseado na experiência cubana, afirmava que um grupo decidido, representando "as forças populares", poderia vencer um exército convencional. Não seria necessário esperar que ocorressem "as condições gerais objetivas" para isso. Se uma vanguarda armada se instalasse na zona rural e recebesse apoio dos camponeses, ela seria a faísca que incendiaria o país. Era uma espécie de maoismo adaptado à América Latina. Guevara caiu numa ilusão voluntarista na qual o exemplo cubano, que , na verdade revelou-se uma exceção, poderia ser aplicado universalmente, pelo menos entre as nações do Terceiro Mundo. Tinha certeza de que o que ocorrera em Cuba era o surgimento de uma vanguarda que iluminava o caminho da revolução para todo o resto. Para ele "a revolução pode ser feita, no momento certo, em qualquer lugar do mundo.... Até em Córdoba pode-se fazer uma guerrilha". Dessa forma lançou a chamada teoria do foco revolucionário, ou foquismo, que, posteriormente foi desenvolvida, com maior acabamento teórico, num livro de Régis Debray "A Revolução na revolução" (La révolution dans la révolution), de 1967.
Che foi nomeado presidente do Banco Nacional de Cuba e depois Ministro da Indústria. Sua mentalidade econômica, inspirada no modelo soviético da época de Stalin, era extremamente centralizadora, concretizada no seu Sistema Orçamentário, onde as atividades das empresas estatais seriam regidas por um controle único. Isso tornou-se fonte de divergências com Raul Castro e outros técnicos soviéticos que começaram a chegar a Cuba, e que defendiam um sistema de maior independência empresarial, conjugada com estímulos materiais. Técnicos esses que cada vez tinham maior ascendência conforme a ilha se atritava com os E.U.A. Che imaginava possível escapar, com auxilio dos países do Bloco Socialista, da "maldição do açúcar". De poder tornar Cuba industrialmente auto-suficiente. O que se revelou impraticável. Em 1964 os cubanos assinaram um tratado com os soviéticos, atrelando a ilha de volta à produção de cana. Outro ponto de atrito foi a questão dos estímulos materiais. Che, como quase todo idealista, acreditava que as pessoas deveriam trabalhar apenas motivadas por estímulos morais. A dedicação à causa, o amor ao coletivo e o espirito de solidariedade seriam os combustíveis básicos da nova sociedade. Expressou esse sentimento num ensaio chamado "O socialismo e o homem novo em Cuba" (El socialismo y el hombre nuevo en Cuba), publicado em 1965, onde defendia que o processo de transição para o socialismo deveria ser acompanho por uma mudança psicológica e moral: o surgimento de um homem novo desprendido do interesse material. Para tanto "a sociedade em seu conjunto deveria converter-se numa grande escola".
Che decepcionou-se com os soviéticos em duas ocasiões. A primeira foi durante a gravíssima crise dos mísseis, de outubro de 1962, quando Krushev, o 1º Ministro da URSS, evitando um enfrentamento direto com o governo Kennedy, que poderia redundar numa guerra nuclear. Sem consultar Fidel, o líder soviético aceitou retirar os mísseis que ele instalara secretamente em Cuba, a pretexto de defendê-la contra uma eventual ataque americano. E, a outra, quando discursou em Argel, em 1965, criticando o Bloco Socialista, liderado pelos soviéticos, de impor regras comerciais que não se diferenciavam dos países capitalistas. Além disso, o rumo interno cada vez mais liberalizante da sociedade soviética que se somava à política da "coexistência pacífica" com o capitalismo, proposta por Krushev, soava aos ouvidos de Guevara, como aos chineses de Mao Tse-tung, como o abandono da causa da revolução. Ora, na medida em que Cuba, cada vez mais dependia para a sua subsistência das suas relações com a URSS, a posição de Che Guevara ficou insustentável.
Congo, 1965
"Nada ele ganha na paz,
mas é o primeiro na guerra; (...)
Vamos sorte; vamos juntos/ já que assim juntos nascemos
e já que juntos vivemos/ sem poder nos cindir
Abrirei com meu punhal/ o caminho pra seguir!..."
José Hernández "El gaucho Martín Fierro"( Canto VIII, 238-241)
Nos anos 60 Che tornou-se o símbolo vivo e itinerante da Revolução Cubana. Sua barba, seu uniforme e a boina, tornaram-no a materialização da insurreição. Conheceu os grandes personagens da política mundial da sua época: Krushev, Mao-Tse-tung, Tito, Nasser, Ben Bella, sendo inclusive condecorado pelo Presidente Jânio Quadros. A vida estável, familiar, rotineira - Che casara a segunda vez com uma cubana, Aleida, com quem teve quatro filhos - não condizia com seu temperamento. O pó da pólvora havia entrado em seu sangue.
Como havia um rebelião ainda não completamente sufocada no Congo (atual Zaire) ele concebeu um plano de "enfrentar o imperialismo em outro fronte". Tratava-se, como ele escreveu para a revista Tricontinental, em 1965, de "criar dois, três Vietnãs", afim de fazer com que os EUA dispersasse suas forças. O líder nacionalista do Congo, Patrice Lumumba, fora assassinado em 1961, durante a tentativa de secessão da rica província de Katanga. O poder então caiu em mãos de Kasavubu e de Tshombé, que mantinham o país num situação neocolonial, onde as empresas mineradoras belgas e americanas continuavam dominantes. No Congo oriental, um agrupamento nacionalista, dirigido por Laurent Kabila, ainda esboçava uma resistência. Che resolveu aderir na esperança de poder reverter o quadro.
Foi seu "delírio africano". Com um grupo de 100 cubanos "internacionalistas" Che, com o codinome Tatu (do swahili), chegou à região em abril de 1965. Foi uma decepção. Os líderes africanos quase nunca vinham ao fronte, o despreparo das forças era total. Não havia a mínima disciplina e os congoleses, além de acreditarem no dawa (corpo-fechado) e na magia dos feiticeiros, não queriam nem transportar os equipamentos e alimentos. Os próprios cubanos começaram a por dúvidas no sentido daquela operação militar. Afinal era uma guerra africana, cujas regras eles pouco entendiam. Além disso o governo de Kasavubo havia contratado as eficientes tropas mercenárias de Mike Hoare que, em geral, punham os congoleses a correr.
Em novembro de 1965, Che, mesmo a contragosto, teve que concordar em abandonar a missão. Atravessou o Lago Tanganica de volta à Tanzânia, desanimado e abatido pelo fracasso. Um mês antes Fidel Castro, para afastar os boatos de desentendimento entre ele e Che, obrigou-se a ler publicamente uma carta de despedida do amigo, onde ele renunciava a todos os postos e cargos que ocupara no governo cubano, como abdicava da própria nacionalidade cubana. Em segredo, escondeu-se na embaixada cubana em Dar es Salam, na Tanzânia, recuperando-se das várias doenças que adquirira na selva africana e cogitando qual seria o próximo passo a dar.
Bolívia: 1966-7
"....ficamos/ sem rancho onde morar/ sem ramada a que ganhar/
nem rincão aonde fugir/camisa que nos vestir/
ou poncho pra nos tapar."
José Hernández "El gaucho Martín Fierro"( Canto XII, 657)
Em novembro de 1966, o economista uruguaio Adolfo Mena Gonzáles, registrou-se num hotel em La Paz, capital da Bolívia. Era Che disfarçado. Segundo o chefe do PC boliviano Mário Monje, a função deles, dos comunistas bolivianos, seria apenas servir de trampolim para que Guevara pudesse alcançar a Argentina. Um seguidor de Che, o jornalista Jorge Masetti, já havia tentado, em 1963, sem sucesso, instalar um foco em Salta, na Argentina. Praticamente todos foram mortos ou desapareceram. Mas Che não perdia a esperança de que sua presença catalisaria as energias revolucionárias, o que, por si só, poderia fazer eclodir a revolução. Foi olhando para a Argentina que Monje comprou uma propriedade ao sul, em &Nti
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lde;acahuazú, mais próxima da fronteira de Salta do que de La Paz. Lá o grupo de Che Guevara se instalou. Comunicaram então a Monje que o objetivo primeiro era dar início a uma guerra na Bolívia e, depois, dependendo da evolução dos acontecimentos, expandi-la para outros países vizinhos. Monje então exigiu que a chefia do movimento fosse entregue a um boliviano. Che Guevara rejeitou. Para um "internacionalista" como ele, um revolucionário itinerante, essas questões nacionais tinham menor significado. Erro de avaliação que ele pagou com a própria vida.
Não demorou para que problemas de toda a ordem acometessem o grupo de guerrilheiros. Os contatos com Havana tornaram-se raros, as confusões com os bolivianos só aumentaram e o pior é que não havia adesão nenhuma da população local. Eram recebidos, quando adentravam nas aldeias e vilas, por olhares pétreos ou assustados. E, ao invés de angariar simpatia, eram vistos como intrusos que trariam problemas para as comunidades. Os chefes políticos, os corregidores, não demoravam em relatar às autoridades militares o roteiro da guerrilha, apontada como invasora apátrida. E, assim Che Guevara, exausto e adoentado, marchou, nos primeiros dias de outubro de 1967, definitivamente para o cerco e para a morte. No remoto vilarejo de La Higuera, só, terminou seus dias de peregrino da revolução.
Conclusão
"O Homem é o homem e suas circunstâncias" - Ortega y Gasset
Ao morrer, há trinta anos passados, Che Guevara descromprometeu seu nome, com a gradativa desilusão que a Revolução Cubana e o socialismo terminaram por provocar. Apesar da sua teoria do foco revolucionário ter redundado num desastre de gravíssimas proporções para a esquerda latino-americana (O MIR chileno, os Tupamaros uruguaios, o ERP e os Montoneros argentinos, o VAR-Palmares no Brasil, e tantos outros mais, foram dizimados pelas Forças Armadas), Che saiu-se preservado. Seu retrato foi estampado por todos os lados como um ícone rebelde, do homem-motim, do inconformado ,daquele que encarna o anti-sistema, seja ele qual for.
Com o ocaso e a decepção das grandes causas que acometeu os anos 90, sua figura parece um tanto estranha, senão anacrônica, quase a de um quixote moderno: um homem capaz de morrer por idéias, num fim-de-século sem idéias. Che, porém, como tanto outros personagens da história, deve ser entendido sob o prisma da sua época. Os anos 60 foram revolucionários por excelência: a Revolução Cubana, a Guerra do Vietña, o Movimento Hippie e a revolta dos campi norte-americanos, o Concílio do Vaticano II, a descolonização da África, a Revolta estudantil de Maio de 1968 na França, a Rebelião estudantil na América Latina, a Primavera de Praga, sufocada pelos soviéticos em 1968, o Movimento pelos Direitos Civis nos EUA, liderado por Martin Luther King, a Revolução Cultural na China de Mao, etc.. serviram como pano de fundo para sua atuação. Esta época, ideologicamente confusa, caótica e multifacetada, revolucionou a política, as ideologias, a religião, as universidades, a música, as leis e os costumes, e ainda estamos longe de entendê-la na sua merecida profundidade. Che, paira, portanto, como um símbolo-síntese daqueles anos turbulentos e inquietantes, e, ao mesmo tempo, como um daqueles mitológicos titãs que perpetuamente se insurgem contra os deuses.
O Socialismo
O Socialismo Científico foi desenvolvido no século XIX por Karl Marx e Friedrich Engels. Recebe também, por motivos óbvios, a denominação de Socialismo Marxista. Ele rompe com o Socialismo Utópico por apresentar uma análise crítica da realidade política e econômica, da evolução da história, das sociedades e do capitalismo. Marx e Engels enaltecem os utópico pelo seu pioneirismo, porém defendem uma ação mais prática e direta contra o capitalismo através da organização da revolucionária classe proletária. Para a formulação de suas teorias Marx sofreu influência de Hegel e dos socialista utópicos.
Infraestrutura e superestrutura
Segundo Marx a infraestrutura, modo como tratava a base econômica da sociedade, determina a superestrutura que é dividida em ideológica (idéias políticas, religiosas, morais, filosóficas) e política (Estado, polícia, exército, leis, tribunais). Portanto a visão que temos do mundo e a nossa psicologia são reflexo da base econômica de nossa sociedade. As idéias que surgiram ao longo da história se explicam pelas sociedades nas quais seus mentores estava inseridos. Elas são oriundas das necessidades das classes sociais daquele tempo.
Dialética A dialética se opõe à metafísica e ao idealismo por completo. Engels e Marx "pegam o 'núcleo racional' de Hegel, mas rejeitam a sua parte idealista imprimindo-lhe um caráter científico moderno".
O modo dialético de pensamento pondera que nenhum fenômeno será compreendido se analisado isoladamente e independente dos outros. Eles são processos e não coisas perfeitas e acabadas; estão em constante movimento, transformação, desenvolvimento e renovação e não em estagnação e imutabilidade. O mundo não pode ser entendido como um conjunto de coisas pré-fabricadas, mas sim como um complexo de processos. Estes estão em três fases: tese, antítese e síntese. Pela contradição da duas primeira (tese e antítese) surge a terceira (negação da negação) que representa um estágio superior. Esta, por sua vez, tornar-se-á uma nova tese e será negada, surgindo um nova síntese e assim por diante. É importante lembrar que a antítese não é a destruição da tese, pois se assim fosse não haveria progresso.
O processo de desenvolvimento resultante com a anterior acumulação de mudanças quantitativas, apresenta evidentes mudanças qualitativas. Assim, vemos que o desenvolvimento não segue um movimento circular, mas sim progressivo e ascendente, indo do inferior ao superior.
Luta de classes A história do homem é a história da luta de classes. Para Marx a evolução histórica se dá pelo antagonismo irreconciliável entre as classes sociais de cada sociedade. Foi assim na escravista (senhores de escravos - escravos), na feudalista (senhores feudais - servos) e assim é na capitalista (burguesia - proletariado). Entre as classes de cada sociedade há uma luta constante por interesses opostos, eclodindo em guerras civis declaradas ou não. Na sociedade capitalista, a qual Marx e Engels analisaram mais intrinsecamente, a divisão social decorreu da apropriação dos meios de produção por um grupo de pessoas (burgueses) e outro grupo expropriado possuindo apenas seu corpo e capacidade de trabalho (proletários). Estes são, portanto, obrigados a trabalhar para o burguês. Os trabalhadores são economicamente explorados e os patrões obtém o lucro através da mais-valia.
Alienação O capitalismo tornou o trabalhador alienado, isto é, separou-o de seus meios de produção (suas terras, ferramentas, máquinas, etc). Estes passaram a pertencer à classe dominante, a burguesia. Desse modo, para poder sobreviver, o trabalhador é obrigado a alugar sua força de trabalho à classe burguesa, recebendo um salário por esse aluguel. Como há mais pessoas que empregos, ocasionando excesso de procura, o proletário tem de aceitar, pela sua força de trabalho, um valor estabelecido pelo seu patrão. Caso negue, achando que é pouco, uma exploração, o patrão estala os dedos e milhares de outros aparecem em busca do emprego. Portanto é aceitar ou morrer de fome. Com a alienação nega-se ao trabalhador o poder de discutir as políticas trabalhistas, além de serem excluídos das decisões gerenciais.
Mais-Valia Suponha que o operário leve 2h para fabricar um par de sapatos. Nesse período produz o suficiente para pagar o seu trabalho. Porém, ele permanece mais tempo na fábrica, produzindo mais de um par de sapatos e recebendo o equivalente à confecção de apenas um. Numa jornada de 8 horas, por exemplo, são produzidos 4 pares. O custo de cada par continua o mesmo, assim como o salário do proletário. Com isso ele trabalha 6h de graça, reduzindo o custo e aumentando o lucro do patrão. Esse valor a mais é apropriado pelo capitalista e constitui o que Marx chama de Mais-Valia Absoluta. Além de o operário permanecer mais tempo na fábrica o patrão pode aumentar a produtividade com a aplicação de tecnologia. Com isso o operário produz mais, porém seu salário não aumenta. Surge a Mais-Valia Relativa.
custo de 1 par de sapatos na jornada de trabalho de 2 horas GASTOS DO PATRÃO meios de produção = R0 salário = R TOTAL = R0 custo de 1 par de sapatos na jornada de trabalho de 8 horas GASTOS DO PATRÃO meios de produção = R0 x 4 = R0 salário = R TOTAL = R0 / 4 = R5
Assim, o par de sapatos continua valendo R0, mas o custo do patrão caiu em R por par produzido. No final da jornada de trabalho o operário recebeu R, porém rendeu o triplo ao capitalista. É a exploração capitalista. É fato.
Materialismo histórico Para Marx a raiz de uma sociedade é a forma como a produção social de bens está organizada. Esta engloba as forças produtivas e as relações de produção.
As forças produtivas são a terra, as técnicas de produção, os instrumentos de trabalho, as matérias-primas e o maquinário. Enfim, as forças que contribuem para o desenvolvimento da produção.
As relações de produção são os modos de organização entre os homens para a realização da produção. As atuais são capitalistas, mas como exemplo podemos citar também as escravistas e as cooperativas.
No processo de criação de bens estabelece-se uma relação entre as pessoas. Os capitalistas, donos dos meios de produção (máquinas, ferramentas, etc.), e o proletariado, que possui apenas sua força de trabalho, estabelecem entre si a relação social de trabalho. A maneira como as forças produtivas se organizam e se desenvolvem dentro dessa relação de trabalho Marx chama de modo de produção. O estudo deste é fundamental para a compreensão do funcionamento de uma sociedade. A partir do momento que as relações de produção começam a obstaculizar o desenvolvimento das forças produtivas cria-se condições para uma revolução social que geraria novas relações sociais de produção liberando as forças produtivas para o desenvolvimento da produção.
O último estágio Marx afirma que a história segue certas leis imutáveis à medida que avança de um estágio a outro. Cada estágio caracteriza-se por lutas que conduzem a um estágio superior de desenvolvimento, sendo o comunismo o último e mais alto. A chave para a compreensão dos estágios do desenvolvimento é a relação entre as diferentes classes de indivíduos na produção de bens. Afirmava que o dono da riqueza é a classe dirigente porque usa o poder econômico e político para impor sua vontade ao povo jamais abrindo mão do poder por livre e espontânea vontade e que, assim, a luta e a revolução são inevitáveis.
Para Marx, com o desenvolvimento do capitalismo, as classes intermediárias da sociedade vão desaparecendo e a estrutura de classes vai polarizando-se cada vez mais. A alienação e a miséria aumentam progressivamente. Com o auxílio dos partidos dos trabalhadores o proletariado vai tornando-se cada vez mais consciente de sua luta e de sua existência como classe revolucionária. Portanto esses partidos não teriam o papel de apenas ganhar votos e satisfazer interesses pessoais, mas sim de educar e alertar os trabalhadores.
A perspectiva internacional tomará maior importância, em detrimento do nacionalismo exacerbado. Mais cedo ou mais tarde a revolução proletária terá êxito, com as condições objetivas e a disposição subjetiva coincidindo. Com as sucessivas crises econômicas do capitalismo suas crises vão se agravando e aproximando-o da crise final.
A sociedade pós-capitalista não foi inteiramente definida por Marx. Dizia ele que tal discussão seria idealista e irrealista. Ponderou apenas que após a revolução instalar-se-ia uma ditadura do proletariado. As empresas, fábricas, minas, terras passariam para o controle do povo trabalhador, e não para o Estado, como muitos pensam e como líderes pseudocomunistas fizeram. A propriedade capitalista extinguiria-se. A produção não seria destinado ao mercado, mas sim voltada para atender às necessidades da população. O socialismo, como essa fase é denominada, deve ser profundamente democrático. O Estado iria naturalmente dissolvendo-se. Porém Marx ressalta: "trazendo as marcas de nascimento da velha sociedade, a sociedade recém-nascida será limitada, sob muitos aspectos, pelos legados da velha sociedade capitalista."
Após o socialismo uma fase superior se desenvolveria: o comunismo. O Estado desapareceria definitivamente, pois seu único papel é manter o proletariado passivo e perpetuar sua exploração. A distinção de classes também deixaria de existir, todos seriam socialmente iguais e homens não mais subordinariam-se a homens. A sociedade seria baseada no bem coletivo dos meios de produção, com todas as pessoas sendo absolutamente livres e finalmente podendo viver pacificamente e com prosperidade.
CUBA
Há exatos 40 anos, precisamente em janeiro de 1959, um grupo de jovens guerrilheiros tomava o poder em Cuba, ilha do caribe, localizada a apenas 90 milhas do litoral da Flórida.
A revolução Cubana rompeu com os laços que fizeram da ilha quase que uma extensão dos EUA ao longo do século XX. Inteiramente subordinado aos interesses norte-americanos, o estado Cubano comportou-se de forma subserviente durante todo o período pré-revolucionário aceitando imposições humilhantes e revelando com freqüência a fragilidade de sua soberania.
A vitória de Fidel e seus camaradas no final dos anos 50 e a juventude dos líderes guerrilheiros exerceram rapidamente enorme influência no imaginário de todos aqueles que no mundo lutavam contra a opressão e o imperialismo capitalista. E não poderia ser de outra forma, afinal o encerramento da ditadura pró-EUA significou uma brusca ruptura na longa e trágica história de submissão do continente aos interesses geopolíticos elaborados nos elegantes salões da casa branca.
A ocupação da ilha pelos espanhóis ocorreu no final do século XV e imediatamente seu território foi alvo de intensa exploração econômica imposta pelo estado metropolitano revelando sua extraordinária vocação para a agricultura de exportação. A inserção em massa de trabalhadores negros escravos de origem africana faz parte desse cenário em que o objetivo maior era transferir para a Europa as riquezas aqui produzidas.
No século XIX, as terras de Cuba encontravam-se dominadas pelo plantio da cana-de-açúcar, formando um imenso tapete verde sob o qual se escondia tanta miséria. Mesmo sendo uma colônia espanhola, o principal comprador do açúcar produzido na ilha eram os EUA e cresciam os interesses de empresas norte-americanas preocupadas em ampliar seus negócios com os Cubanos.
Nesse momento, quase toda a América já havia conquistado sua independência em relação às metrópoles européias, exceção feita a Cuba que apesar de ter sido uma das áreas pioneiras na presença espanhola na América, estava condenada a ser uma dos últimos redutos do colonialismo ibérico. Somente no final do século XIX, encontramos a gênese do Estado Cubano emancipado onde se destacou a figura de Jose Martí.
O movimento separatista declarou guerra à Espanha contando apenas com um improvisado exército constituído predominantemente por negros e sofreu duro golpe, no início dos combates, com a morte de Martí. Mesmo sem contar com seu principal líder, os cubanos obtiveram significativas vitórias e a guerra caminhava para seu final quando ocorre a intervenção dos EUA no conflito. Acusando os espanhóis de afundarem um navio americano, o "Maine", as autoridades norte-americanas declararam seu apoio aos colonos e enviaram soldados para a guerra contra a Espanha.
O fato é que Cuba representava muito para a engenhosa política externa dos EUA. A localização geográfica da ilha coloca-a na zona de absoluta segurança estratégica dentro dos planos norte-americanos, ou seja, sua área incorpora-se aos limites estabelecidos como vitais para a integridade dos EUA. Não bastando isso, os interesses comerciais eram imensos, pois empresas americanas eram as maiores compradoras do açúcar cubano e inúmeros executivos olhavam para a ilha com expectativa de desenvolver novos projetos.
Vencida, a Espanha foi obrigada a ceder o controle dos territórios de Porto Rico e das Filipinas para os EUA e militares americanos assumiram o governo de Cuba assim que os espanhóis reconheceram a derrota. Em janeiro de 1898, selava-se o triste episódio de transferência da dominação espanhola para a dominação norte-americana. A emenda Platt, texto imposto e anexado a constituição cubana em 1901, tornava legítima qualquer intervenção militar dos EUA no interior da ilha e revelava o alto grau de condescendência das autoridades Cubanas. Além disso, o governo de Cuba foi obrigado a entregar uma faixa de seu litoral para que os norte-americanos montassem uma base militar na baía de Guantánamo.
Nas décadas seguintes, ampliou-se de forma considerável a participação do capital americano nos negócios da ilha atuando livremente, sem restrições, na área do transporte, comércio exterior, mineração, turismo e, sobretudo, àqueles vinculados a produção e comercialização do açúcar.
No plano político, a primeira metade do século XX foi caracterizada pela sucessão de governos despóticos que, com suas ações, consolidaram a posição de Cuba de "quintal dos EUA". As pessoas ligadas aos setores políticos contrários a esse modelo foram duramente perseguidos, presos, torturados, e várias lideranças de oposição acabaram assassinadas. Em Havana, capital do país, a corrupção impregnava-se em todas as esferas do poder público e em suas ruas os cassinos, o gangsterismo e a prostituição propagavam-se em escala geométrica.
No início dos anos 50, os dirigentes da oposição perderam definitivamente a esperança em relação à possibilidade de chegar ao poder pelas vias democráticas. O caminho defendido por esses grupos descontentes com o quadro sócio-político na ilha passa a ser a luta armada. Deve-se ressaltar que o bloco oposicionista ainda não tem, nesse momento, um perfil ideológico definido, apresentando propostas vagas que condenavam a ditadura cubana e procuravam resgatar os princípios patrióticos sugeridos por Jose Martí no final do século XIX.
Em 1953, ocorre a primeira ação armada organizada pela oposição quando um pequeno grupo de homens tentou assumir o controle sobre o Quartel de Moncada, um dos principais regimentos militares do país, a poucos quilômetros da cidade de Santiago de Cuba. A insurreição acabou resultando num enorme fracasso e as forças da repressão não tiveram dificuldades em prender inúmeros envolvidos, entre os quais encontrava-se o jovem advogado Fidel Castro.
Fidel na Assembléia Nacional
Ao sair da prisão, depois de quase dois anos de cárcere, Fidel e seus companheiros continuavam a defender que somente uma nova ação armada poderia dar aos Cubanos a democracia e a soberania. A corrupção eleitoral e a violência da ditadura de Fulgêncio Batista demonstravam claramente para seu grupo a necessidade de preparar, agora com maior cuidado, um grande movimento revolucionário que contasse com o apoio de camponeses e operários.
No exílio em terras mexicanas Fidel Castro, em companhia de Camilo Cienfuegos Ernesto Che Guevara e de seu irmão Raul, organiza o movimento guerrilheiro 26 de julho, referência à data da ação que tentou tomar o quartel de Moncada. Em 1956, o grupo guerrilheiro, com apenas 82 homens, parte em direção a Cuba, onde desembarca na região de Sierra Maestra. Em janeiro de 1959, após três anos de duros combates, os revolucionários assumem o poder na capital encerrando o longo período da ditadura de Batista.
As primeiras decisões do governo de Fidel, no plano interno, demonstravam uma brusca mudança de rumo. Terras foram confiscadas, empresas estrangeiras nacionalizadas, a tarifa de energia elétrica reduzida, enfim, medidas que acabaram gerando imensa euforia popular. No plano externo, o governo de Fidel procurou restabelecer as relações comerciais e diplomáticas com a URSS, apesar de publicamente demonstrar uma posição de eqüidistância em relação ao conflito EUA-URSS.
Essa neutralidade Cubana em pleno cenário da guerra fria foi vista pela Casa Branca com grande desconfiança. Se, por um lado, o perfil do governo revolucionário se apresentava divorciado dos interesses americanos, por outro lado resistia a um imediato alinhamento com a URSS. Essa nova postura de Cuba não impediu a agressiva reação dos EUA inicialmente através do boicote econômico e depois com a tentativa de invasão da baía dos porcos.
Em abril de 1961, grupos contra-revolucionários formados principalmente por mercenários e refugiados cubanos no exílio invadiram a ilha através da Baía dos Porcos. A ação foi longamente planejada pela Central de Inteligência Americana (CIA), teve a aprovação do jovem presidente John Kennedy e pretendia, em última instância, derrubar o governo Castrista. A habilidade das autoridades cubanas, que contaram com o imediato apoio das camadas populares, rechaçou a ação dos invasores e depois de três dias de combates Fidel comemorava uma nova vitória.
A insegurança representada pela ameaça constante de tão poderoso vizinho serviu como elemento catalizador para que o governo cubano fizesse enfim sua aliança econômica e militar com a URSS. Agora a guerra fria ganhava contornos dramáticos com a inserção de um país americano, geograficamente muito próximo dos EUA, no chamado bloco socialista.
As tensões atingiram seu ápice em 1962 com o episódio da "crise dos mísseis". Em desvantagem na corrida armamentista e sem tecnologia suficiente para atingir o território dos EUA com suas bombas, a URSS e o governo cubano pretendiam instalar na ilha parte do arsenal soviético. A reação contrária da Casa Branca foi imediata e levou o mundo a temer um conflito direto entre as duas superpotências. Durante esse período de enorme tensão, Nikita Kruschev, líder soviético, e John Kennedy, presidente dos EUA, acertaram os detalhes do pacto que levou a retirada dos mísseis da região do caribe e, em troca, os EUA comprometeram-se a respeitar a soberania da ilha.
A radicalização dos EUA com o bloqueio aéreo e naval e a expulsão de Cuba da OEA - Organização dos Estados Americanos - explicam a posição mais agressiva da política externa cubana que nos anos 60 e 70 participou ativamente da luta armada ao lado de grupos socialistas que tentavam tomar o poder em países da América e da África.
Enquanto isso governo Castro apresentava ao mundo inegáveis ganhos na área social com a eliminação do analfabetismo e uma das menores taxas de mortalidade infantil do continente americano. Programas nos setores educacional, saúde e habitação tornavam-se viáveis com recursos originados de relações comerciais com os países do bloco socialista. Com a URSS os cubanos desenvolviam transações altamente vantajosas vendendo açúcar com preços acima dos estabelecidos pelo mercado internacional e comprando petróleo com valores abaixo dos fixados pelo comércio exterior. Estima-se que os subsídios soviéticos somavam, extra-oficialmente, a cifra de cinco bilhões de dólares por ano.
A lua de mel com a URSS e com outros países socialistas começou a apresentar sinais de desgaste em meados dos anos 80 para se transformar em divórcio no final dessa mesma década. A ascensão de Mikahil Gorbatchev ao poder na URSS em 1985 e sua proposta de abertura econômica e política, Perestróika e Glasnost, respectivamente, revelaram ao mundo a fragilidade da economia soviética e a necessidade urgente de reformas. A agonizante situação interna levou a direção do partido comunista em Moscou a rever a ajuda financeira que era vital para o governo cubano.
A crise irradiada a partir da URSS rapidamente propagou-se pelo bloco socialista numa velocidade inimaginável para todos os analistas em política internacional. A queda do muro de Berlim, em novembro de 1989, causou perplexidade pela forma pacífica como ocorreu, mas também por revelar o estágio de putrefação dos regimes comunistas que dominavam a Europa do leste. Imediatamente todos esses países começam a viver um lento processo de reformas econômicas e políticas que avançam na direção da democracia e da privatização dos meios de produção. Para Cuba a conseqüência maior foi a perda de seus tradicionais aliados e, consequentemente, o agravamento de sua crise econômica.
Após 40 anos no poder o governo de Fidel dá evidentes sinais de esgotamento. A idade avançada do comandante, no entanto, não o impede de continuar seu discurso denunciando os EUA por suas ações que visam asfixiar a economia cubana. Mas a revolução perdeu grande parte de seu charme com as crescentes notícias de violações aos direitos humanos, da propagação da prostituição nas ruas de havana, da lentidão das reformas que timidamente respondem ao boicote comercial americano e, sobretudo, da ausência de perspectiva de democracia no país.
Para alguns, ainda agarrados à velha utopia comunista, o inevitável fracasso da globalização, a ampliação do grau de miséria e de desemprego nas áreas periféricas do mundo, são evidências de que o velho comandante Fidel Castro está no caminho correto. Para outros, no entanto, se o estágio atual do capitalismo internacional não é nada promissor, a solução também não está no anacrônico modelo estatizante, burocratizado e repressor do qual o governo cubano é um dos últimos exemplares.
Lembro, para finalizar, de um encontro com Mariela Castro, filha de Raul Castro, irmão de Fidel e considerado seu herdeiro natural. Era uma manhã fria, em Quito, capital do Equador, na casa de Osvaldo Guayasamim que morreu esse ano e é considerado um dos maiores pintores da América Latina. A emoção do encontro estava vinculada aos meus ideais da época e na ingênua e gostosa sensação de que a humanidade iria encontrar seu caminho na construção de uma sociedade mais digna. Ficaram desse
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momento da minha vida fotografias recolhidas em algum álbum, a agradável conversa em minha memória, uma gravura autografada na parede da sala e a imagem da cordilheira dos Andes quase que a me dizer: "menino, a vida não é constituída só por planície".
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